O mundo está ao contrário e ninguém reparou

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Eu queria ir para a lua. E eu acreditei que podia. E eu fui, quando a minha mãe me deu de natal a Barbie Astronauta. Eu fiquei tão tão tão tão feliz. Me senti a pessoa mais poderosa do mundo. Não é qualquer um que vai para a lua. Mas eu fui. Aí teve um dia que eu decidi ser mergulhadora. Mas foi muito difícil, demorou tanto para eu me tornar uma. Mas enquanto eu esperava, eu fui professora, veterinária, bailarina, sereia... Até que um dia, quando eu menos esperava, fui mergulhadora. E aí eu me tornei a pessoa mais feliz do mundo. Não é qualquer um que pode ser astronauta e depois se tornar mergulhadora. Mas eu fui. Eu fui tudo que eu queria ser. Tudo que consegui ser. Aí chegou um dia que eu quis ser arquiteta. E eu tentei. Acreditei que conseguiria. Mas não consegui. E eu chorei. Como chorei. Antes eu podia ser tudo que eu quisesse e agora a única coisa que eu queria ser, não consegui. Não é tão bom ser adulta.
E aí eu quis sumir. Me tranquei naquele quarto em que eu podia ser tudo o que eu quisesse. Eu podia ser eu mesma e um milhão de outras coisas que passassem pela minha cabeça. Só que quando eu saía dali a realidade era outra. Eu nem podia ser eu mesma, porque se eu fosse, viria um milhão de pessoas me criticar ora por eu estar acima do peso, ora por não ter o cabelo perfeito. Isso é muito cansativo. Sociedade estúpida. Pessoas ignorantes. Onde está o valor de tudo? Naquela bota caríssima que eu sonhava em ter ou naquele morador de rua que me livrou de um assalto uma vez?
Passei a pensar no verdadeiro significado de viver. Talvez eu estivesse vivendo errado. Talvez as pessoas é que estivessem sendo erradas. Tudo é talvez. Talvez hoje chova, e tomara que chova. Esse calor está acabando com as minhas opções de roupas de verão. Se eu repetir essa blusa hoje de novo, o que vão pensar de mim? Olha como a sociedade está corrompida, eu nunca havia pensado assim, mas agora eu penso. Ninguém enxerga o estrago da catástrofe de todos os dias.
É filho matando pai por causa de herança; mãe abandonando filha em caçamba de lixo; construções na beira do mar e a culpa é das ondas; enchentes todos os dias e a culpa é da chuva que cai sem parar. De um lado fome, sede, miséria, doença; Do outro, Chanel, Adidas, Moschino, Tomorrow Land Coachella. O mundo está ao contrário e ninguém reparou. 
Vamos deixar claro, não estou dizendo que você não pode comprar uma marca de roupas que você adora, nem que você não deve ir aos festivais assistir aos shows dos seus artistas preferidos, longe de mim dizer o que vocês têm ou não que fazer. O que quero dizer é bem simples: Falta conteúdo. Falta amor. Falta respeito. Falta esperança. Falta caridade.
Eu queria ser uma arquiteta. E eu tentei. Acreditei que conseguiria. Mas não consegui. E eu chorei. Como chorei. Hoje não choro mais, mas dói. Dói até a minha alma. Mas não pense que é por causa desse sonho frustrado. O que me dói é ver o quanto a sociedade está alienada. Dói ver que não enxergamos o real problema do mundo. E eu me incluo ao grupo dos alienados, porque eu demorei para enxergar isso.
Hoje eu queria ser uma Barbie, porque quando eu era uma, eu podia fazer qualquer coisa, até mesmo ir à lua. Imagina o que eu poderia fazer se eu fosse a Barbie Presidente?

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