Crônicas de uma quase bailarina

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Talvez eu seja uma pessoa boa. Ou talvez não. Ainda não me decidi sobre isso. Aliás ainda não me decidi sobre muitas coisas. Indecisa, taí uma coisa que eu sou. Minha mãe costuma dizer que sou a filha mais confusa que ela já poderia ter, talvez seja por isso que ela briga tanto comigo. Dá pra perceber que ela cobra mais de mim do que das outras, que manda mais em mim do que nas minhas irmãs. Ah, tudo bem que eu sou a mais nova, mas eu já sei o que quero para minha vida, eu quero ser bailarina, quero dançar para o resto da minha vida. Ela não. Ela quer que eu seja arquiteta.
Confesso que uma das minhas paixões é desenhar, e modéstia à parte, eu desenho muito bem. Mas eu sinto amor ao dançar. Eu poderia dançar um dia inteirinho e não me cansaria, é como se fosse um energético. Quando eu coloco minhas sapatilhas, meu coração já começa a pulsar. É automático. Eu sinto a minha alma vibrar.
Faz um ano que eu me dedico a estudar arquitetura. Faz um ano que eu tento encontrar nos meus projetos algo que também mexa com o meu coração e vai mais a fundo, chegando lá na alma. Um ano de um busca que, por enquanto, está sendo em vão. É triste. É desesperador. Dá vontade de jogar tudo para o alto e ir atrás do meu verdadeiro sonho. Mas segundo a minha mãe "isso não dá dinheiro", "eu tenho que pensar no meu futuro", "eu tenho que dar uma condição boa para a minha família", "eu tenho que ter uma profissão de verdade", "tenho que deixar de ser 'criança' e começar a fazer algo de adulto", "dançar não garante a vida de ninguém", "ser bailarina é pra quem é rico e esbanja dinheiro". Confesso que é desgastante todos os projetos que tenho que fazer, me estresso muito com tudo que tenho que desenhar, entregar, matérias de provas, tá tudo tão difícil. Eu não me reconheço mais. Essa não sou eu. Eu era tão feliz quando dançava. Hoje faz dois meses que não danço. Me sinto triste. Não consigo me inspirar. Hoje eu entreguei uma maquete na faculdade, conclusão do último semestre do ano. Minha mãe estava mais feliz que eu, estava orgulhosa de mim. Foi uma das melhores da sala, o sorriso da minha mãe ia de orelha a orelha. O meu não. O do meu pai também não. Mas minha mãe estava tão feliz que até chorou. Era só por isso que eu ainda estudava. Só por isso. 
Fomos comemorar no meu restaurante preferido, com a melhor comida japonesa da cidade, a pedido do melhor pai do mundo. Pelo menos uma coisa boa no dia. Durante o jantar inteiro meu pai fazia a mesma pergunta "Você está feliz Beca?" - apelido de Rebeca - "Estou pai", "Feliz de verdade?", "Sim pai". Acho que ele sabia que no meu interior, a resposta era não. Na manhã seguinte fui acordada ás 6:05 da manhã pelo meu pai. "Beca acorda. Tenho que te levar num lugar, se você demorar, não vai dar tempo", "Tempo pra quê? Eu tô de férias". "Vai logo Beca. Tenho uma surpresa pra você". Levantei, coloquei meu vestido da sorte e fui. No caminho fui fazendo várias perguntas pro meu pai. Queria muito saber onde estávamos indo. Sou muito curiosa. Numa parte do caminho, ele parou o carro vendou meus olhos e seguimos viagem. Aquilo estava me matando, queria muito saber onde estávamos. Desci do carro. Tirei a venda. Estava em frente a companhia de ballet que eu frequentava quando era menor. Eu não entendi. Mas meu corpo começou a tremer, meu coração disparou e eu chorei. Olhei para meu pai e ele simplesmente me disse:
"Filha, a gente vive uma única vez. O que faz você feliz de verdade? É aqui que você quer estar não é? Você não pode simplesmente deixar seus sonhos de lado e viver os sonhos de outra pessoa. Quem te conhece sabe que não está feliz. A vida é tão curta. Num piscar de olhos já acabou. A gente tem que ir atrás do que nos faz feliz, daquilo que faz nossa alma vibrar, nosso corpo pedir mais. A gente tem que sentir prazer naquilo que faz. Não adianta você ter um emprego bom, um salário ótimo e ser infeliz. Hoje é o teste para O Lago dos Cisnes. Já peguei sua roupa, vá se concentrar que logo logo começa as audições. Eu confio no seu talento"
Hoje faz um ano que eu fiz o teste para a apresentação dos meus sonhos. Faz um ano que eu desisti do sonho da minha mãe e fui atrás do que realmente me faz feliz. Hoje é a apresentação. Eu consegui o papel principal, serei a cisne branca e a cisne negra. Não sei qual foi mais difícil para eu encenar. O meu lado branco sempre prevaleceu, mas eu descobri meu lado negro há pouco tempo. Talvez eu seja uma pessoa boa. Ou talvez não. Ainda não me decidi sobre isso. Mas agora eu vivo por aquilo que me faz feliz de verdade. Eu continuo confusa. Mas agora a minha confusão eu desvendo nos meu passos, no meu ritmo, no meu plié e no meu sauté. Hoje eu sou feliz de verdade. Continuo indecisa. Em todas as minhas indecisões, lembro-me do conselho do meu pai, e sigo a minha vida assim, vivendo por aquilo que faz as borboletas do meu estômago voar sem parar, afinal de contas " a vida não tem graça se não tiver frio na barriga. " .




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Frase do Dia

"Guarda-me, ó Deus,
porque em Ti
confio"