Crônicas de um soldado ferido

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A gente vive em guerra. Desde a antiguidade o ser humano luta pela sobrevivência. A primeira guerra que já existiu foi a Guerra de Tróia, tudo porque raptaram Helena, esta durou quase dez anos. Foram tantas desde quando o homem passou a querer dominar o mundo. Uma das mais conhecidas -  pra não dizer a mais -  você já deve ter estudado, a Segunda Guerra Mundial, que matou milhares de pessoas, inclusive soldados, eu estava presente. Completei 18 anos e meu presente foi ser convocado para lutar. Antigamente era tudo mais difícil, naquela época quem tinha carro era milionário, as pessoas do governo, agora qualquer garotinho que fica maior de idade ganha carro e ainda desrespeita os mais velhos, acham que mandam, coitados, se passassem por um terço do que já passei dariam mais valor ao que têm de mão beijada.
Mas eu não me importo. Eu me lembro que senti orgulho por ser convocado para defender o meu país naquela guerra. Ás vezes fecho os olhos e vejo as cenas que vivi passando pela minha mente, como se fosse um filme. Dói. Machuca. Lembrar as condições daquela época é desesperador. Tanta gente morta, tanto sangue, tanto sofrimento, tanta dor.
Eu estava no meio de uma batalha, cansado de estar ali, não podia vacilar nenhum segundo. Se eu piscasse, me matavam. Era a guerra pelo meu país e a luta pela minha sobrevivência. Invadimos uma casa, entrei na frente, uma moça linda, cabelos negros e longos, pele branca e olhos claros, não era muito alta, mas também não era muito baixa, tinha a altura perfeita pra uma moça. Quando invadi a casa dela, ela estava sentada na mesa da sala de jantar tomando chá, com suas melhores vestes.
"Bom dia soldado, achei que daria tempo de terminar meu chá" - me espantei com a recepção e disse para os meus companheiros esperarem lá fora. Ela percebeu minha reação e foi se explicando. "Eu já sabia que vocês viriam, ouvi o barulho todo. Meus pais estão lá em cima dormindo, já têm uma certa idade e não conseguem ficar muito tempo sentados aqui embaixo. Antes que você me pergunte, tem criança aqui sim, inclusive está sentado no sofá assistindo pela última vez seu desenho preferido. Peço só uma coisa, já que vamos todos morrer, começa por ele, não quero que ele se assuste ou sofra vendo sua mãe e seus avós mortos diante dos seus olhos, seria muito triste morrer com uma cena dessas não é mesmo? Bom, não tem como você saber, mas eu saberei. Um dia talvez, se nos encontrarmos por aí, compartilho isso com você. E antes que você também me pergunte, ele é meu filho, mas não tem pai. Na verdade tem, mas eu não o conheço, é uma longa história, acho que você não tem tempo para ouvir, e nem eu para te contar, mas só para que você saiba, o pai dele me forçou a ter relações com ele, o menino veio de surpresa, eu não queria, mas confesso que foi a minha alegria nesses dias tortuosos. Bom, meu chá já esfriou, posso saber pelo menos o nome do soldado responsável pela minha morte e a da minha família?" 
Antes que eu pudesse responder ela se levantou e foi em direção ao menino. "Abner, a mamãe te ama muito meu anjo" "Ah, eu queria que desse tempo pra eu assistir o final do desenho. Eu posso ser o último?" "Não meu amor, não temos mais tempo." "Ta bom mamãe te amo muito, pra sempre." Eles se abraçaram e eu chorei. Pela primeira vez eu pude ver o caos que eu estava participando. Eu não tive coragem.deu um tiro no chão. Olhei pra ela e disse. "Esconda-se o máximo que puderem, por anos se possível for. Se algum outro entrar aqui não vai agir com o coração. E a propósito, meu nome é Valentin." "Obrigada soldado Valentin, me chamo Adelia". 
Faz cerca de 70 anos que a guerra acabou. Durante todos esses anos fiquei com meus pensamentos todos voltados para Adelia. A vi uma única vez na minha vida. Bastou somente essa vez para que meu coração balançasse. Eu não me casei, não namorei, nunca tive ninguém ao meu lado para chamar de minha. Mas Adelia mexeu com as minhas estruturas. Adelia mexeu com meu interior. Faz 70 anos que eu amo a mesma mulher, mas nunca pude dizer isso para ela. E pra você pode parecer estranho amar alguém que você viu apenas uma única vez, mas para mim não. Ela foi a minha concepção de amor. Ela foi a única que fez com que eu desejasse que aquela guerra acabasse. Eu queria ter permanecido ali naquela casa e defendido toda aquela família. Eu não faço ideia de como ela está agora, se sobreviveu à toda aquela guerra. Mas a ferida que ficou no meu coração aquele dia, permanece aberta até hoje. As dores do coração são piores que as do corpo.



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"Guarda-me, ó Deus,
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